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Protesto serial, por Janderson Lacerda

Era um tempo difícil. Os jornais fumegavam, enquanto o país convulsionava em uma crise sem fim!


O poder legislativo nadava em um lamaçal fétido – repreendido por um palhaço. Enquanto o executivo representava o escárnio e a desesperança. O judiciário partidarizado reproduzia a imoralidade e os maus costumes de uma sociedade sem lei para todos.

Diante de tantos fatos negativos, a população brasileira assistia a tudo em silêncio. O tino das panelas deu lugar ao ronco dos estômagos. Incrédulo o povo marchava rumo ao precipício.

A gota d'água foi não ter água para cozinhar. O gás de cozinha deu lugar à lenha e o trabalho escravo foi regularizado. A violência urbana atingiu seu ponto máximo; poucos transitavam pelas ruas após as 18h.

A lista de problemas parecia não terminar. As empresas prestavam maus serviços, porque possuíam a certeza da impunidade. Até que um determinado grupo (constituído por 80% de homens brancos) decidiu abandonar a passividade e erguer uma bandeira para reivindicar seus direitos.

A chamada para manifestação era pública, mas, apenas, um seleto grupo, abraçou a causa. O protesto foi marcado para zona sul de São Paulo; o intuito era marchar até a zona oeste. Os manifestantes, munidos com o “Kit protesto”, (Camisetas e bandeiras do Brasil), começaram a caminhar pelas calçadas da cidade. Alguns ensaiavam palavras de ordem. Outros andavam em silêncio e com semblante fechado. Aos poucos, os primeiros cartazes e faixas foram levantados. As principais frases: “A gente não quer só comida! Dignidade e Respeito já!” Eram, também, as mais frequentes...

Até que de repente, os manifestantes param diante de um arranha-céu imponente e todo espelhado. Os cartazes são erguidos com maior disposição e um clima de tensão toma conta da região. A polícia militar acompanha atenta, mas sem exercer o uso da força. Os jornalistas tentam capturar a melhor imagem, ou a declaração mais impactante.

Por um minuto o silêncio toma conta do protesto. Uma pausa e logo em seguida, ouve-se assobios e um clamor unificado – “Netflix golpista”!

A multidão alvoroçada tenta invadir o prédio aos gritos de “Killer of serial” (Assassino de série!). A polícia militar, aos poucos e sem violência, afasta os manifestantes.

Um senhor de cabelos grisalhos, alto, pele clara, mesmo no meio da balbúrdia, aceita conversar com um repórter:

“Nosso movimento é pacífico, mas queremos dizer que não aceitaremos esta situação. Onde está a justiça”?

Uma mulher eufórica aproxima-se e toma o microfone do jornalista que atônito só tem tempo para ouvir:

“Contratamos o serviço de streaming e é inadmissível encerrar uma série sem aviso prévio. Ora o que esta empresa pensa que somos”?

O senhor de cabelos grisalhos interrompe a mulher e continua: “quantos assinantes ficaram órfãos agora? Isso é um verdadeiro golpe contra os consumidores! Que história é essa de que não haverá a segunda temporada da série? Por acaso alguém foi consultado”?

A multidão, impulsionada pela ira, começa a vociferar em coro, ocultando a voz do senhor: “Killer of serial,  Killer of serial, Killer of serial”!

 

Jornal GGN

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