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Involução dos Bichos, por Janderson Lacerda

A secretaria estava cheia. Os funcionários, a maioria comissionados, não exerciam funções específicas. Assim como os concursados que eram trocados constantemente de setor. A carga de trabalho era alta, mas dificilmente os servidores conseguiam dar conta de toda a demanda, porque eram assediados para participarem de ações externas que visavam à promoção do governo.


O Secretário de Governo, muito arrogante, é quem ditava as regras. Apesar de pouco aparecer, sempre enviava seu grupo de assessores para comunicar as ações de marketing e divulgação da gestão. A mais recente ideia era a de um almoço coletivo para divulgar a ração humana. A ração era parte importante de um projeto de combate à fome. O projeto foi batizado de — quem tem fome, come! E a ideia era lançá-lo em um “estrondoso” almoço para os servidores públicos e seus familiares.

O evento foi realizado na sexta-feira. E apesar da cúpula executiva não estar presente, os assessores representaram muito bem os secretários e o chefe do executivo. Com direito a discursos, selfis e entrevistas, o almoço era ofertado à base de ração humana e água.

A ração era constituída de ingredientes não identificados, um assessor chegou a dizer que este era o segredo do sucesso. Disse, ainda, que toda a fórmula ou receita saborosa possui um segredo. O certo é que ninguém sabia como era feita a ração. As pessoas, então, a degustavam com estranheza e desconfiança. Outro assessor chegou a ser flagrado cheirando a ração humana que estava esfarelada em seu prato. A cena bizarra poderia ter tido uma repercussão maior, se outro fato inusitado não tivesse ocorrido... Um funcionário teve um mal súbito enquanto comia e começou a convulsionar sobre a mesa. As pessoas impressionadas correram para acudi-lo, mas foram surpreendidas por um grito agudo de outro servidor que caiu de quatro no chão e, inexplicavelmente, começou a latir como um cão.

Em pânico os trabalhadores viram o principal assessor do Secretário de saúde, desenvolver um movimento semelhante ao de um galo; quando prepara uma esporada. E logo depois outros grupos de assessores começaram a ciscar e a cacarejar.

Uma jornalista, horrorizada com os acontecimentos, até tentou noticiá-los em primeira mão, mas foi impedida por seu cinegrafista que atirou a câmera no chão; em seguida, o repórter cinematográfico, ameaçou levantar voo, no entanto foi interrompido por um coice certeiro; dado por outro repórter que relinchava feito um cavalo.

A jornalista percebendo a gravidade dos fatos cuspiu o pequeno pedaço que mastigava de ração e tentou evadir-se do local, mas antes de ganhar a rua foi acometida, também, por um mal súbito e começou a rastejar e a silvar: “ssssssssss”!

A Secretaria de Governo em poucos minutos fora transformada em um verdadeiro zoológico. A polícia florestal foi chamada (não se sabe por quem) e, curiosamente, da viatura, desceram quatro porcos, dois com a farda da policia e os outros dois de terno. Os porcos andavam sobre as duas patas traseiras e sorriam como humanos. Até que um dos suínos (que vestia-se com terno) disse com entusiasmo:

“Oinc, oinc,oinc, eu vencerei a próxima eleição”!

“Quac, quac, quac!” Responderam os outros porcos. 

 

GGN

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