2ª Licenciatura, Pós, Extensão e Cursos

Imigrante, por Janderson Lacerda

A casa ficava próxima ao rio Branco em Boa Vista. Era pequena, mas muito acolhedora. A decoração rústica, meticulosamente planejada, criava uma atmosfera aconchegante ao local. O aroma das flores e plantas fundia-se com o cheiro do rio que podia ser avistado da varanda. Após horas de conversas rasas, aperitivos e muitos drinks, Ramon decidiu voltar para casa. A lua cheia e o céu límpido iluminavam os passos apressados do homem. Ramon era bacharel em direito e decidiu morar em Boa Vista após ser aprovado -- em segundo lugar— em um concurso público da Receita Federal.

Chegar a casa era um prazer indescritível. Ramon morava sozinho e não gostava de dividir seu espaço com mais ninguém, a não ser com seu gato malhado e estrábico -- que sempre o ignorava. Naquela noite o clima parecia mais seco do que o habitual e o excesso de álcool do “Happy hour “, associado ao acumulo de trabalho da semana parecia ter pesado sobre seus ombros. Ramon abriu a geladeira pegou uma garrafa com água gaseificada e só não a bebeu de uma só vez, porque pensou ter ouvido um estranho ruído.

Chamou o gato, mas lembrou-se de sua personalidade egoísta e logo desistiu. A caminho do banheiro foi retirando sua roupa e lançando-a em qualquer móvel vazio que encontrava pela frente. Caminhava cansado, mas feliz! A liberdade sempre fora o estímulo perfeito para sua vida.  Após um longo banho sentiu-se revigorado e com ânimo para ler. Enquanto andava só de cueca em direção a sala teve a sensação de ouvir, novamente, um barulho. Insistiu em chamar o gato, que não atendeu. Depois riu de si mesmo.

Abriu um livro de autoajuda e sentou-se no sofá. Leu três laudas e assustou-se quando o livro de cento e doze páginas caiu no chão, após um breve cochilo. Tentou continuar a leitura, mas desistiu após ter a sensação de ouvir mais um ruído. Levantou-se apressado e ouviu de novo e de novo. Não era coisa de sua cabeça, alguém estava na casa! Abriu a gaveta da estante e pegou seu revolver calibre 38. Andou vagarosamente com as luzes apagadas até a cozinha e notou que o lixo estava revirado. “Filho da puta”! Balbuciou baixinho.

Com passos lentos foi caminhando até o quarto, quando ouviu um barulho mais forte! Assustado, lançou-se ao chão e rastejou por uns cinco metros. Correu até a porta do cômodo e abriu-a de supetão. A janela escancarada permitia que a luz do luar iluminasse boa parte de seu aposento. Ramon com a arma em punho viu de relance um homem de cueca e pele parda. “Hijo de puta”! Gritou e atirou muitas vezes!

Uma bala ricocheteou e atingiu o peito de Ramon. O som dos tiros foi ouvido por toda a vizinhança. A polícia foi chamada e encontrou Ramon caído e morto sobre seu próprio sangue. A sua frente um grande espelho destruído pelos tiros. Na cama, dois gatos -- o malhado, estrábico e outro desconhecido, dormiam o sono dos justos. 

GGN

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