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Cinéfilo, por Janderson Lacerda

Irineu trabalhava em uma repartição pública de segunda a sexta-feira. Vestia-se sempre com terno escuro e lia jornal. Aos sábados entediava-se com as reuniões familiares e enfrentava as imensas filas do mercado. Não jogava futebol, não fumava e pouco transava. Seu prazer era ir ao cinema. Apreciava filmes alternativos e evitava o cinema hollywoodiano (embora fosse admirador de Quentin Tarantino); quando dormia sonhava em protagonizar um dos filmes do diretor estadunidense.

Aos domingos levantava-se cedo, preparava o café e saia em direção a uma sala de cinema alternativa, localizada no centro velho de São Paulo. Sobre protesto da mulher (que desconfiava de sua ausência) passava o dia fora de casa. Dirigia por um longo período até o cinema, apreciava os muros acinzentados da cidade, criticava os pedintes e ambulantes que o abordavam nos semáforos.

Na sala de cinema já era conhecido. Comprava o ingresso, um balde de pipoca e uma coca cola de 600 ml. Às vezes sentia-se culpado e pedia uma coca zero.  Ajeitava-se na poltrona, e enquanto divertia-se com os trailers, comia e bebia feito um suíno. Irritava-se com o barulho provocado por sua própria mastigação. E pedia silêncio, mesmo quando a sala estava vazia.

Quando iniciava o filme seus olhos ficavam pregados na tela, o balde de pipoca, já esvaziado, assim como a garrafa, eram descartados na poltrona vizinha. Os primeiros minutos eram os mais empolgantes para Irineu que sentia o ar refrigerado do cinema entrar por suas ventas, além do brilho da grande tela que lustrava seu orgulho. O homem sentia-se um cinéfilo, um apreciador da sétima arte, um verdadeiro intelectual. Seus hormônios entravam em ebulição, sentia uma taquicardia, uma adrenalina indizível e por fim a endorfina que o nocauteava: entregava-se a Morfeu! Caia em um profundo sono, que nem mesmo seus agudos roncos eram capazes de despertá-lo. Irineu dormia; sonhava. Vestindo seu terno Armani preto, dirigia uma Range Rover, e atropelava centenas de ambulantes.

O sonho era cinematográfico; os camelôs corriam, feito uma manada de gnus, na tentativa de fugirem de predadores de fardas. Enquanto isso, Irineu (o protagonista) arrasava os inimigos do fisco. Depois do massacre, o exemplar funcionário público, era condecorado na prefeitura e seu nome estampava as capas dos principais jornais: Irineu o herói moderno! O homem gargalhava no próprio sonho, ao mesmo tempo, que era cutucado por uma senhora, incomodada pelo barulho. Já acordado recompunha-se, procurava, em vão, pelo saco de pipoca vazio. E via os créditos finais do filme. Era hora de partir para outra sessão. 

 

GGN

 

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