2ª Licenciatura, Pós, Extensão e Cursos

África em Conto: Nascente do Kwanza

Somos a família Nizazi. Estamos na mira dos Ovimbundos. Povos do centro Norte de Luanda. São Pastores do planalto.  E rivais dos Kimbundos, artífices do ferro. Ódio nos une. Ódio nos separa. Aprendemos cedo diante do paredão de fuzilamento. Nossa escola.  Ódio e fuzilamento são a única memória possível. Não entendia a diferença: tockue, ovimbundo, umbundo ou kimbundo. Eu tremia por desconhecer a diferença.

Ao pé da nascente do Kuanza estávamos uns dezesseis. Havia um total de uns setenta prisioneiros. Não se entendiam. Muitos eram os grupos misturados. Um verdadeiro mosaico.

Seríamos fuzilados. Ou nossas irmãs, tias, primas seriam violentadas. Nós homens somos guerreiros. Mesmo sem vontade. Nossos braços seriam decepados pelo facão. O troféu seria um braço esquerdo e uma perna direita. De cada guerreiro duas mutilações. Mas a primeira das muitas foi ser guerreiro. Soldado ainda menino. E ser macho cabia iniciação.

Ter o prepúcio cortado pelo estilete enferrujado. O ritual da mukanda. Sem tétano e sem choro. Não morri. Depois da cicatriz do umbigo, ser macho foi a mais traumática de todas. Eu teria de aprender as palavras: combate, embate, munição, beligerância, posse, exército, matança.

Os soldados começam a matança. Atiram para o alto, alguns. A metralhadora começa: grunhidos, gritos, guerra, guerrilha, granada, grilhão…  As explosões eram atômicas. Os fogos de artifício me ferem com o mesmo terror. As armas, todas ocidentais, dilaceram os corpos.

As armas de fogo são todas brancas. Na terceira fila estávamos todos de uma mesma linhagem. Nunca consegui dizer uma frase maior que esta, em face do ocorrido, do medo e do pânico, da náusea e do terror… Silêncio. Sempre. Silêncio nos protege. Falar pode fazer-me pó. Melhor se o fosse. Podíamos ser escravos de guerra. Ou sermos feitos maricas. Ou servir nossa mãe de amantes para eles. E ter irmãos com sangue do inimigo. Este é o maior troféu de guerra.

Por instantes, esqueci a nascente do Kwanza. Ali faríamos um farnel. Por horas abusaram de nossa infância. Pensei não viver. E não conhecer o gozo do amor. Casar. Ter muitas esposas. Ter incontáveis filhos.

O pasto havia me iniciado como cobrir muitas fêmeas. Boa ração. Muito leite de cabra. E descanso de guerreiro. E silêncio, para que uma não saiba da outra. O coito sempre em silêncio nos escondia. Camuflava-nos. Mas na mira de muitos fuzis. Na mira de um lança-chamas. Na mira de facões. Nós, os guerreiros Kimbundos, desabávamos.

Havia Bacongos, Xigongas, Lundas e Mbundos. Não sabia quem era quem. Apenas as línguas distintas. Elas são ameaça de guerra. Falar uma língua é extermínio na certa. O pavor nos assemelhava à condição de nada. Por que tanto ódio? Não sei até hoje. Escapamos do paredão.

Por Dentro da África

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Herbert Schutzer
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